NA FREQUÊNCIA DA VIDA
Amante da mulher do pai
Olá amigo ouvinte!
Poderia chamar-se Hipólito, Eduardo, Francisco ou António! Terá agora uns vinte, vinte e poucos anos. Vive como sempre viveu: "ao calha"; vive ao "Deus dará"...
Nasceu por acaso; por acaso e por engano: as contas saíram furadas e o planeamento familiar que nunca houve fizeram o resto; e o Hipólito nasceu...
Foi este o seu pecado: ter nascido...
É esta a sua culpa: ter nascido por engano...
Fruto do amor que nunca houve e dos pais que nunca o souberam ser... o Hipólito nasceu; Sim, foi este foi este o seu mal...
Não foi dado nem achado mas, já que nasceu, é estorvo; é culpado daquilo que não tem culpa...; ele que é inocente só porque nasceu "ao calha", é , agora, culpado em toda esta história.
Tem que ser suportado... e o "tem-que-ser " tem muita força...
O amor dos pais que nunca existiu... mas que "deu no que deu" - no Hipólito... - não poderia aguentar muito mais tempo...e chegou ao fim; chegou ao fim, pouco tempo depois: chegou ao fim o que nem sequer teve principio...
Mais dia menos dia, mais ano menos ano, tinha que acontecer. E aconteceu: Aos oito anos, e quem diz oito diz 10, o Hipólito teve oficialmente, o que sempre conhecera de facto: a separação dos pais...
A mãe, a mãe do Hipólito que só fez a sua obrigação de o deitar cá para fora - como ela ainda hoje o diz ...e "cheia de razão"... - fartou-se dele...; dele, do marido e de não sei mais quem.... Mas pronto! Fartou---se também - e, se calhar, sobretudo- dele, do Hipólito, do filho que nunca quis... mas que teve que gramar ... e fugiu; fugiu de casa; da casa que nunca foi lar: fugiu dele, do Hipólito, que foi o filho que nunca quis e que veio para lhe complicar a vida...; e do marido; marido que nunca o foi ...nem nunca o soube ser...
O Hipólito teve que ficar, por isso, com o pai. Com o pai...o tal que só o foi naquela noite, quando chegou a casa a cair de bêbedo e a exigir da mulher o que ela não queria! E apareceu o Hipólito...o tal intruso que nenhum deles estava à espera mas que tiveram que assumir... se não era uma vergonha...! Além do mais 130 contos não aparecem, assim, do pé para a mão...
Já que foi "botado cá para fora"- como afirma, temos que o aturar! Que remédio! Tem que ser! E o "tem-que-ser" tem muita força; tem, outra vez, muita força...
O Hipólito que já nascera por acaso e por engano... é agora, mais do que nunca, suportado. Suportado pelo pai que nunca o soube ser, e pela madrasta - a segunda mulher que o pai arranjou...
E foi assim, neste ambiente, que o Hipólito lá foi vivendo... sabe Deus como...; sabe o amigo ouvinte o porquê!
A nova mulher que o pai arranjou - e que não era assim tão nova quanto isso... - só o era e só sabia ser isso: ser mulher... E foi, por isso, mulher do pai, de outros pais, e foi, também, claro, está, e para compor este ...lindo...ramalhete ... mulher do Hipólito. Tinha este 14 anos. 14 anos! A mulher do pai e de outros que tais, foi ela própria, também, mulher do filho do marido; foi esta mulher que ensinou o que é ser homem...ao filho do marido! O que é ser homem...aos 14 anos!
Mais uma vez o Hipólito não teve sorte; mais uma vez foi culpado...sem ter culpa. Foi culpado por causa da sua inocência...
Foi apanhado! Foi apanhado pela mulher do pai que o seduziu; e apanhado pelo próprio pai que os apanhou; aos dois...
E apanhou...
Apanhou ...por ter sido apanhado pelo pai que era também marido;
Poderia Chamar-se Hipólito...
Fugiu de casa... e anda por aí, ao deus-dará; ainda anda por aí...
Foi muita coisa torta para virar agora direito...
Ele que nasceu por acaso e por engano...
Ele que foi abandonado pela mãe, desprezado pelo pai , e seduzido pela madrasta; madrasta que só sabia ser mulher e que era mulher de todos e para todos...
Agora, anda por aí... aos caídos; ao "deus dará"...
Mete-se com quem estiver mais à mão de semear: há pouco tempo pescou alguém parecida com a mulher do pai; esteve com ela três meses! Agora... agora anda a ver como param as modas; as modas e as montras...
Poderia chamar-se Hipólito! Tem agora 20, vinte e poucos anos!
Dorme ao relento... e, claro, refugia-se no Álcool. "Tá-se" mesmo a ver"...
Ninguém lhe vale:
O pai considera-o um ingrato...; A mãe só o foi para o pôr cá para fora... ; E a madrasta, essa, só foi mulher para o ensinar a ser homem quando este tinha 14, 14 anos...
Poderia chamar-se Hipólito...
Na semana passada encontrei-o perto da ponte...
Estava sozinho, embriagado... e preparava-se para, mais uma vez, dormir ao relento...; para não variar...
Poderia chamar-se Hipólito. Não se chama assim, e o nome aqui também pouca importância terá! Tem, e isto é mesmo verdade, vinte e poucos anos...
Se calhar... até já passou por ele!
Ele até nem se esconde. Às vezes, chega mesmo a dormir em plena cidade...
Pois é! Pois é amigo ouvinte... Se tudo isto se resolvesse com "rendimentos mínimos garantidos"... Só que, nós o sabemos: nem com rendimentos máximos lá vamos! Se isto não nos entrar no...no coração... haverá sempre Hipólitos ao nosso lado!
Não concorda comigo?
Até para a semana!
29-02-1998
Rádio Soberania (99.3 Mhz)
Crónica difundida na Rádio Soberania de Águeda (99.3 Mhz), no dia 29 de Abril de 1998 às 8.30 18.30 e 21.30 horas.
Difundida ainda na Rádio Regional do Centro de Coimbra (96.2 Mhz) no dia 29 de Abril às 8.30 horas e na Rádio Nova de Cantanhede no dia 2 de Maio , às 8.30 horas.