NA FREQUÊNCIA DA VIDA
E chegou o grande dia. Aquele parzinho de noivos, depois de se ter preparado convenientemente, depois de ter participado nos encontros de preparação para o casamento; depois de terem feito os convites... e de terem marcado o restaurante; depois de se terem preparado, até ao último pormenor a cerimónia, estudando bem as respostas às perguntas que o padre Ihes iria fazer - para que tudo desse certo e não acontecesse qualquer "barraca" imprevista que estragasse tudo... - finalmente o grande dia chegou...
Lá chegaram uns minutos atrasados - como é da "praxe" - e começou tudo direitinho... como manda a lei:
Então, amigo ouvinte, para tornar a cerimónia mais pessoal, e para que as respostas fossem mais "terra-a-terra", lembrei-me (nunca mais o faço ) de voltar a fazer a mesma pergunta só que de outra maneira... Por isso, virei-me para o noivo - até porque tinha confiança com ele a esse ponto - e voltei a perguntar:
Escusado será dizer, amigo ouvinte, que a resposta deste noivo, assim tão categórica, tão categórica como insólita - caiu como um "balde de água fria". Coloquei uma cara séria - até porque o caso também não era para menos - e decidi averiguar se era, mesmo, essa a vontade do noivo. Como deve calcular, se fosse esse o seu desejo, o casamento não poderia concretizar-se!
Felizmente que tudo não tinha passado de um engano e o noivo, para descanso de toda aquela gente, e da noiva que já estava um pouco preocupada, lá acabou por rectificar a resposta, tudo não passando afinal de um engano facilmente explicável pelos nervos...
Enfim a cerimónia lá chegou ao fim, sem mais incidentes. Para descanso da noiva, e de mim próprio, devo dizê-lo amigo ouvinte, e com toda a franqueza
Eu lembro-me muitas vezes deste caso, amigo ouvinte, porque dizer só, da boca para fora, sim... sim... sim... é demasiado fácil; é mesmo muito fácil dizer sim; agora, quando se trata de provar o sim com a Vida ... aí é que são elas... E então, quando há pessoas inocentes por fora, a pagar as favas da nossa irresponsabilidade... então o caso vira mesmo pró sério...
Tinha acabado de contar naquela aula - a propósito já nem sei de quê - um célebre caso que a Bíblia nos conta. Aquele em que Jesus nos aparece a perdoar à mulher adúltera... apesar de ser adúltera, lembra-se, amigo ouvinte? Aquele caso... em que Jesus diz que, quem não tiver pecados que seja o primeiro a atirar a primeira pedra...sim, sim... esse mesmo, Lembra-se? Pois bem, no fim da aula, quando me preparava já para sair da sala, aquela aluna, de 12/13 anos, aproxima-se de mim, e depois de ter olhado para todos os lados - como que a certificar-se de que nenhum companheiro a ouvia - sai-se com esta:
-Oh stôr o meu pai é um "adultéro"! - Lá me informou, em surdina, olhando, desconfiada, para todos os lados
Amigo ouvinte! Como deve calcular, fiquei sem jeito. Quem não ficaria sem jeito perante esta confissão tão espontânea. Tão espontânea Como cruel; tão cruel como verdadeira. Por isso, e sem saber bem o que deveria dizer, lá acabei por perguntar:
Pois é, amigo ouvinte. O que se poderá dizer a uma menina de doze / treze anos que já sabe e que já descobre destas coisas tão complicadas, lá em casa? Que se poderá dizer?
Pois é! É muito complicado.... Para já esta menina tem mãe, e tem pai. Pois tem! Só que a mãe... anda sempre a chorar; o pai, esse, vai ter com outra. É um "adultéro" - dizia aquela menina triste que me procurou tendo, até, dificuldade em pronunciar um palavrão tão complicado e tão difícil; tão difícil de dizer... mas tão fácil de fazer...
A mãe chora, a filha anda triste e o pai... bom, o pai...dorme com a mãe ...mas vai ter com a outra...
A filha já o sabe; já o sabe e já é capaz de o dizer. Para já ainda o vai dizendo às escondidas dos colegas; ainda o diz com vergonha... como se fosse um segredo íntimo
Mas... até quando?
Até quando vai continuar a chamar pai ao pai?
Pois é amigo ouvinte, às vezes, se calhar, mais vale responder como o outro: "Até à morte, não!" e assumir o que se diz ... do que viver no faz de conta... sem se dar conta do que se faz...
Não concorda comigo?
06.03.1996