NA FREQUÊNCIA DA VIDA
NA ADEGA, POIS CLARO!
O ti Manel, um homem entrevado, paralítico; não se mexe. Onde o colocam é onde ele fica. Quando era mais novo, ninguém o aturava: era mau como as cobras. A mulher, coitada dela, é que pagava, sempre as "favas". Quando não era agressão física era agressão verbal...; daquela que é própria dos carroceiros...
E, assim, o ti Manel, lá foi vivendo causando muita morte à sua volta. Era trabalhador! As coisas devem ser ditas; o que é é! E neste aspecto, todos são unânimes: O ti Manel trabalhava que nem um desgraçado! Agora, e no que respeita, a relações públicas e conjugais..."tá quieto! Cuidado com o "bicho"! Ninguém o aturava...
Os anos foram passando mas os "achaques",esses, foram--se acumulando. E o ti Manel lá foi emperrando... emperrando...e foi o principio do fim
De inicio, foram as "dobradiças" dos joelhos. Estes que eram tão vigorosos começaram a emperrar... a emperrar...
E pronto. Agora, agora, são dores, dores atrozes, atrás de dores. A espinha, essa, dobrada em ponte, não lhe perdoa; não lhe dá quaisquer chances. E o Ti Manel, um homem cheio de vida - e que semeou a "morte", tanta morte à sua volta... é, agora, um homem que embora vivo, está morto
Está paralítico; não pode andar... ; "anda" todo "encangado"!
Um dia destes fui visitá-lo...
Entrei em casa; na sua casa; na casa que, sendo sua, é como se já não fosse; ele não é senhor de estar onde quer; está onde o metem!!!... E amigo ouvinte, onde o fui encontrar foi na adega...; estava na adega embrulhado em cobertores mal cheirosos. Sim, foi na adega que o encontrei; foi na adega que o meteram!!! Os "maples"e os sofás que são dele já não são para ele
Chora! Tem vergonha de chorar...mas chora; já aprendeu a chorar sem vergonha: A vida ensina tudo: Até a chorar... e no final de contas, agora é, mesmo, a única coisa, ou das poucas coisas, que ainda sabe e pode fazer
Por isso chora. Não por causa do mimo mas por falta dele
Estranhei! Estou habituado, na minha vida de padre, a entrar em qualquer lado...e não estranho! Não estranho porque quando é para visitar, e para ouvir o outro, não é para ver onde se está nem tão-pouco para ver se a casa está ou não arrumada! Já confessei em muitos lados! Em pátios, na sala, na cama, no quarto, no quintal... onde calha... E vem sempre a calhar quando calha ao doente. Na Adega, foi a primeira vez. E estranhei! Não por ser a adega ...mas porque a casa tinha condições e anexos mais dignos sem ser adega. Por isso - e só por isso - é que estranhei...
O Ti Manel, que já perdeu a vergonha, não a perdeu completamente. E neste aspecto não abriu o jogo...
E foi, ali, na desconcertante adega fria, que falei com o ti Manel que agora está paralítico
Estive um bom bocado! Ouvi muitas coisas; outras ouvi e não percebi; há muitas coisas que também não são para perceber
Por isso ouvi... limitei-me a ouvir e acabei por o deixar na adega; na adega onde o tinha encontrado...
Quando saía, alguém de casa, convidou-me para tomar um ... Whisky
-Vai um Whisky, senhor padre?
Antes de responder, voltei a olhar para a adega: Tinha muitas garrafas! E tinha também o Ti Manel, embrulhado num cobertor sujo...sujo como e com as teias de aranha que cobriam o ambiente...
Não aceitei. Achei que não deveria aceitar. E despedi-me olhando, de novo para a adega sem dizer quaisquer palavras. No entanto, ou por eu ter ainda olhado para a adega, ou por qualquer outra situação que agora não sou capaz de descortinar acabei por provocar a justificação de quem não quereria, por certo, justificar-se:
-O senhor padre não leve a mal de ele estar na adega. Como ele se borra todo e faz xixi para o chão ...assim torna-se mais fácil de lavar...- explicou assim, alguém, lá de casa
Pois é, amigo ouvinte: O ti Manel estava na adega porque fazia XIXI no chão...
Aos bebes muda-se a fralda... aos velhos, como ao Ti Manel metem-se na adega...; é mais fácil de lavar...
Despedi-me e fui embora...
O Whisky ficou no copo e o ti Manel... na adega, pois claro!
20-03-91