Na Frequência da Vida
Bem arrependida estou eu...
Olá, amigo ouvinte!
Com as aulas a chegar ao fim cresce também a excitação entre as alunos. Todos os anos é a mesma coisa. Quando chegam os Finais do período ou do ano, ou, até, mesmo, quando a primavera "bate à porta" acontece sempre uma autêntica reviravolta...
Quando, um dia destes, entrei na sala de aulas para leccionar a disciplina de Educação Moral Católica, a Márcia - Márcia que só se chama, assim, aqui, na sua rádio - "dispara" à "queima roupa", mesmo antes de escrever o sumário:
- O Stôr viu aquilo ontem?
- Aquilo quê?
- Aquilo que deu na televisão?
- Então...mas o que foi?
- Aquilo que aquela avó fez ao neto... - lá explicou a Cláudia que também não se chama assim...
- É preciso ter coragem ?! - Lá opinou, assim, a Rita, verdadeiramente chocada com a situação, ela que também tinha visto a notícia no telejornal...
Se o amigo ouvinte é daqueles que, como eu, não teve ocasião de assistir à notícia - ou porque não teve tempo de ver o telejornal ou porque estava a sintonizar outro canal - apenas lhe digo que a notícia - que estava a servir de tema de conversa dos meus alunos- falava de uma avó que matou o neto mal este acabara de nascer... - e com franqueza, amigo ouvinte, mais não sei: já nem sei bem qual o motivo... Mas pronto! Para aqui o motivo também não importa nem tampouco as motivações. O que interessa mesmo é que o matou; e a morte deste bebé, acabado de nascer... é que estava a constituir esta onda de revolta nos meus alunos...
-Pois é... É por estas e por outras... Se fosse um dia antes já não havia quaisquer problemas; como foi um dia depois... já toda a gente está cheia de pena...- Lá comecei eu, por responder assim...
- Então...mas o Stôr não tem pena? - perguntou escandalizado o Filipe que, por acaso, também tinha visto a notícia. - Esta malta é mesmo assim; pode não ter tempo para fazer o "TPC" e outros trabalhos... mas um dia sem televisão...é o cabo dos trabalhos...
- Não Filipe! Ainda não percebeste o que eu quero dizer: nem eu disse que tinha ou que deixava de ter pena. O que disse é que se fosse um dia antes já não havia azar...
- Se fosse um dia antes, como, Stôr? - Lá perguntou intrigada a Andreia, ainda sem medir o alcance da minha intervenção...
- És mesmo uma atrasada...- lá respondeu a esperta da Filipa...
- Atrasada és tu, sua parva; lá fora comes...- lá respondeu assim, deste jeito espevito a aluna que tinha sido considerada atrasada virada para a esperta da turma...
- Eh, calma aí gente! Então vocês nunca se deram bem estão agora a dar-se mal- lá gracejei deste jeito, deste jeito leve para ver se o clima se compunha...;
- O que eu quis dizer é que há uma grande hipocrisia no meio disto tudo. Se a mãe fizesse um aborto um dia antes... já ninguém falava; mas como saiu para fora e foi morto no mesmo dia ... e à luz do dia, e da televisão...já toda a gente tenha pena...
- Percebem agora?- lá perguntei retoriamente para, acto contínuo continuar:
- Então ...porque também não tem pena dos bebes que são mortos- porque também os há...- dias antes, semanas antes, ou poucos meses antes? O Bebé não é o mesmo...? Ou será que, o que conta para se ser gente, é saber se está fora ou se está dentro ainda do corpo da mãe?
Percebem agora porque digo que há muita hipocrisia em tudo isto...?
Ainda os meus alunos estavam a pensar no que acabara de dizer quando a Cláudia, Cláudia que obviamente também não se chama assim- se sai com esta "tirada" de "caixão à cova":
- Eu também era para não nascer...
- O quê? Também não eras para nascer, como? - Agora sou eu que estou a ser atrasado! O que é que queres dizer com isso?
- Sim, Stôr. A minha mãe engravidou sem querer e o meu pai queria que ela fizesse o aborto...
- Não me digas...-. Respondi intrigado numa altura em só se ouvia o silêncio!
- A sério Stôr! ...
- A sério como? Quem te disse isso?
- Então?! Quem havia de ser! A minha mãe, claro! - Lá respondeu, assim, a Cláudia, com o ar mais normal do mundo...
- A tua mãe?!
- A sério Stôr...
- Bem...lá terá os seus motivos, se calhar. Eu, se fosse eu, nunca diria uma coisa dessas; Ninguém gosta de saber que só nasceu por mero acaso... Tu gostaste de saber isso? - perguntei, amigo ouvinte, longe, muito longe mesmo de imaginar o que estava ainda para sair...
- Oh ! E ainda o Stôr não sabe a missa a metade...
- Então por quê? Porque é que estás a dizer isso, Cláudia?
- Então...porque foi ela que me disse. Disse-me que o meu pai não queria que eu nascesse e disse-me também há três semanas que se soubesse o que sabe hoje... que teria feito o aborto... e por aqui o Stôr já vê...
Pois é, amigo ouvinte! Pois é! Já estou como a minha aluna: Por aqui o meu amigo ouvinte já vê...
Poderia chamar-se Cláudia. Estava revoltada com a morte daquele bebe ela que, por pouco, por pouco e por mero acaso, também passava pela mesma situação...
A mãe esqueceu-se da pílula e engravidou sem querer; Não fez o aborto que o pai queria e a Cláudia lá nasceu por engano. Agora, agora a Cláudia tem 17 anos e já sabe que só nasceu por acaso; e sabe também que a mãe - que levou a gravidez por diante- já se arrependeu e só não volta atrás agora...porque não pode...
Sim... a mãe da Cláudia já está arrependida de não ter feito aquilo...o aborto, o aborto... quer dizer: a interrupção voluntária da gravidez...; Sempre é ... "plus chic"; é mais "in"...; sempre fica melhor num referendo...
Pois é, amigo ouvinte. Decida em consciência. Eu, cá por mim, já decidi...porque, além do mais, não gostaria, quando chegar a velho- se é que lá chego- que outros possam chegar à mesma conclusão a meu respeito: ou seja, de que nem todos as vidas são iguais; que nem todas merecem ser vividas...
Pois é! Pois é!
"Todos são iguais..."béu, béu...pardais ao ninho"... mas, pelos vistos, e apesar de todos sermos iguais, há, ainda, alguns que se julgam mais iguais do que os outros...
Não concorda comigo?
Até para a semana?
Padre Júlio Grangeia 20-05-1998
Rádio Soberania (99.3 Mhz)
Crónica difundida na Rádio Soberania de Águeda (99.3 Mhz), no dia 20 de Maio de 1998 às 8.30 18.30 e 21.30 horas.
Difundida ainda na Rádio Regional do Centro de Coimbra (96.2 Mhz) no dia 20 de Maio às 8.30 horas e na Rádio Nova de Cantanhede no dia 23 de Maio , às 8.30 horas.