Na frequência da Vida
Ela tem 20; vinte anos apenas. É jovem, bonita e solteira. É jovem... mas já é velha... apesar dos seus verdes vinte anos. Tem tido alguns dissabores na vida; dissabores e muitos contratempos. Ao longo destes vintes anos já muita coisa aconteceu. Nos seus verdes vinte anos já conta com um palmares de arrepiar: uma violação, amor não correspondido, o ter-se apaixonado vezes sem conta pela pessoa errada e uma tentativa de suicídio para compor este rol de arrepiar! Convenhamos que o panorama não é nada animador. Como resultado de tudo isto atentou contra a vida há pouco tempo; há relativamente pouco tempo. Teve sorte. Não tomou os comprimidos suficientes para morrer logo: foi salva a tempo... in extremis!
Um dia destes veio procurar-me. Não a conhecia; passei a conhecê-la; a conhecê-la muito bem. Fiquei com a impressão que quando não tem problemas é ela que vai ao encontro deles. O último problema que ela encontrou na sua vida não é jovem; tem mais de 40 anos de idade; ainda por cima - e porque um mal nunca vem só - é casado e pai de filhos.
Encontrou-o não sei onde nem porquê. Estas coisas são sempre assim: Não se sabe muito bem como entram na nossa vida... mas que entram entram; e quando entram... entram de tal maneira que não há hipótese de voltar atrás...
Com ela... foi também assim: alguém lhe deu um pouco do muito amor que lhe faltava; alguém lhe deu um pouco da muita atenção de que era carente; alguém lhe deu um pouco de amor; amor que tanto tem andado arredado da sua vida. E Pronto. Aconteceu. Os encontros começaram a surgir, o amor começou a despontar e a sua juventude a renascer no seu coração tão atribulado
E aconteceu a tragédia: Agora ela que tem a história que tem; ela que tem apenas vinte anos ... está agora apaixonada a sério por um homem de quarenta e tais anos...; perdidamente apaixonada; disposta a fazer tudo para o reconquistar...
Ele começou com a velha cantiga: " A minha mulher não me entende"; "Eu sou muito infeliz"; "Eu não me posso separar porque a minha mulher é como um passarinho que precisa da minha protecção e se ela sonha em perder-me quem a perde de vez sou eu "; " depois ainda fico mais culpado"! ; "ainda me morre de desgosto " Diz ele, convencido e orgulhoso do seu machismo; da sua omnipresença. Ela repete; repete-me o que ele lhe diz e acredita piamente em tudo quanto ele lhe diz; não interessa saber se aquilo que ele lhe diz é verdade, meia verdade ou , mesmo, mentira; nada nem ninguém a convence que está num beco sem saída; para ela o problema passa a ser a mulher dele que, sem ter culpa, ou pelo menos toda a culpa, passa agora a ser o alvo número um, a abater
Não interessa se ela tem 20 anos e ele quarenta e tais; não interessa que ele esteja ou não a fazer bluff para justificar o clima de impasse que vive e que de certa forma lhe interessa; ela acredita; acredita em tudo quanto ele lhe diz; não acredita nem quer sequer ouvir falar em qualquer outra possibilidade
Um dia destes veio de novo ter comigo: Trazia uma carta para colocar no correio; uma carta anónima escrita por ela para endereçar à rival; à mulher do seu amado; Já que ele não anda nem desanda; já que ele não diz nem deixa de dizer... ela vai dizer, na carta, na carta anónima, o que ele não consegue dizer de boca; vai fazer o que ele não faz; vai jogar tudo por tudo...
A coisa está a complicar-se: Na semana passada ele esteve a falar com os pais com os pais dela; veio acompanhado do filho que é da idade dela; precisamente da sua idade; não veio pedi-la em casamento porque não pode; não pode; se calhar mesmo que pudesse não queria ; veio oferecer os seus préstimos para a ajudar; para a ajudar a recompor-se... A recompor-se entende, amigo ouvinte? Os pais também não entendem; não entendem nada; mesmo nada; o filho dele, também nem diz que sim nem diz que não; Todos tem dúvidas; muitas dúvidas; menos ela que está cheia de certezas e disposta ao que der e vier
A mulher dele desconfia...mas ainda não sabe de nada...ou quase nada; o filho dele que é da idade daquela que é amante do pai... finge perceber mas na realidade não percebe; No fundo só ela de 20 e ele de quarenta e tais é que percebem...ou fingem perceber
- O que é que acha desta carta?- Pergunta-me mostrando a carta que quer fazer chegar à rival que mal desconfia do que se passa...
- Se eu enviar esta carta qual julga que vai ser a resposta dele?- pergunta-me ela. Mais uma vez, o que conta é ele...e mais ele; ela, a mulher dele, é apenas uma peça; uma peça deste puzzle tão complicado...
-Olha minha querida: faz o que tu quiseres; afinal de contas és livre de fazer e até de viver com ele se tu quiseres e ele também... Mas será que é isso que ele quer mesmo? Será mesmo isso que tu queres?- perguntei, de uma forma provocatória?
-Mas como acha que ele vai reagir?- volta ela a perguntar. Sempre preocupada com a resposta dele. Ela, a mulher, a mulher dele, não conta; nunca contou; e agora muito menos
- Mas o que é que acha que ele vai responder?- voltou, de novo a perguntar?
Não respondeu. Os olhos toldaram-se de lágrimas que lhe caíram pelo rosto bonito...
- Que gaita de vida, padre Júlio! Porque é que ninguém me entende? Porque é que a vida tem sido tão dura para comigo?
Tem 20 anos. Apaixonou-se pela pessoa errada. Ele tem 40 e tal anos é casado e pai de filhos. Um deles é da sua idade; da idade da mulher que o pai agora encontrou e que o faz esquecer por momentos a esposa que tem em casa e que para já só desconfia. Mal sabe que a sua rival tem apenas 20 anos; a idade do seu filho. Para já ainda não sabe Mas... até quando?
Até para a semana
15/05/96