Tinha mais de 200 anos...
Olá, amigo ouvinte!
Ela encontrou-me por mero acaso. Depois dos cumprimentos de circunstância, o pedido, esse, surgiu espontaneamente:
- Ainda bem que o encontro, senhor padre – começou, assim, para, logo, se justificar:
- Sei que, aqui, não é o melhor local para tratar destas coisas...mas, olhe, o tempo vai passando, passando... e quando “damos por ela”... o tempo já passou mais depressa do que aquilo que queríamos...
- E então? – lá perguntei, eu...
- Se o senhor padre pudesse ir lá, a casa, e estar um bocadinho com a minha mãe.... além da paga era um favor- respondeu, assim, esta filha para, de seguida, explicar melhor a razão porque fazia o pedido que fazia...
- Sabe, Senhor Padre, ela sempre foi muita religiosa; ia sempre à “missinha”.... Agora, coitada, já não pode fazer nada disso; volta e meia tropeça, cai... fica “variada”, não diz coisa com coisa... e assim essas coisas; o senhor entende, não entende?
Lá acenei que sim para, de seguida, ouvir mais uma lamúria... desta feita já nem sei a propósito de quê! Por momentos fiquei na duvida quem é que precisava mais de estar um bocadinho a falar com padre: se era a mãe que era muito religiosa, e que agora estava em casa... e “variada”, volta e meia... se a filha... que falava, falava... sem nunca a conversa ter fim à vista...
- Oh, senho padre...é muito triste ser velho... e olhe ...é preciso, cá, uma paciência!! – lá explicou ela, e assim, como se eu não soubesse a paciência que era necessária ter para, naquele momento, também a escutar a ela e não ter de olhar para o relógio...
- Eu qualquer dia tenho ir a sua casa para falar consigo; aqui não dá!; Lá... explico tudo, “direitinho” como deve ser, deste o inicio... – respondeu, desta maneira, ficando eu, naquela altura, a perceber que, afinal, isto era só os.... “ameaços”; mais, muito mais, pelos vistos... estaria ainda para chegar..
- Sabe... eu tenho andado muito doente...já fiz umas poucas de anestesias gerais.... e...ah!... já me esquecia...- interrompeu ela o raciocínio para entrar, logo ali, e sem qualquer nexo, no outro assunto que entretanto lhe viera à memória, deixando tudo aquilo que estava a falar em “Stand bye” ...
- Gostava muito senhor padre – começou ela, e assim, com novo assunto...- gostava que rezasse muito pela minha filha. Sabe que ela, coitada... – e a culpa até nem é só dela; é mais do marido...- então não é que ele... – lá começou, agora, e desta vez, a falar do marido, deixando a filha, e os seus problemas para...segundas núpcias...
- Olhe, desculpe, agora não vai dar, mesmo; tenho mesmo que sair; depois falamos melhor – lá tive eu, e assim, que a interromper, e de uma forma algo abrupta... até porque efectivamente estava já atrasado...e realmente o local de conversa não era efectivamente o mais apropriado - para recuperar o assunto fundamental da conversa....
- Então, quer mesmo que eu vá ter com a sua mãe, é isso?
- Sim, sim, senhor padre; não é muita pressa...mas logo que tenha um bocadinho... ela iria ficar contente...
Marquei uma ida a casa dela para falar um bocadinho com a mãe, no dia seguinte, e despedi-me um pouco “ à francesa” até porque o tempo, esse, já estava a ... “queimar”...
Ao outro dia, à hora marcada lá encontrei a simpática velhinha à minha espera. Curiosamente, ou talvez não, não estava “variada”...mas muito lúcida, por sinal. Falámos um bocadinho, confessou-se dos seus pecados, combinámos a melhor forma de alguém lhe levar a comunhão... e despedi-me...
- Então estimo as suas melhoras e bom Natal, ti Maria!...
- Obrigado, senhor padre. Quanto é que lhe devo?
- Quanto é que me deve?! Quanto é que me deve?! Não seja tolinha não! Então isso são perguntas que se façam?!– Respondi, assim, a brincar...
E despedi-me. Quando saía, o marido que, entretanto, se aproximara, volta à carga, com a mesma conversa:
- Então, senhor padre... quanto é o seu trabalho?!
- Por amor de Deus... isto não é nada; tive muito gosto... e é a minha obrigação!
- Mau...! Mas eu é que não gosto disso assim...- respondeu com ar sério.
- Esteja descansado. Não é nada... não se preocupe!
- Não senhor.... fico chateado consigo, se não levar nada.- Explicou, assim, resolutamente, para, de, seguida, acrescentar:
- Olhe...espere um bocadinho que eu já venho...
- Ouça...não é nada mesmo...
- “Pere”, faz favor!!!... – lá insistiu de novo, e assim, em tom imperativo, para, poucos segundos após, aparecer com uma garrafa de vinho do Porto...
- Tome lá...; é para o seu Natal!
- Óh Senhor “Manel”... não quero nada...já lhe disse; estou a falar a sério!
- Mau, mau Maria! Não quer?! Se o senhor não aceitar faz-me uma desfeita...- retorquiu com veemência, sem me dar qualquer hipótese...
- Olhe, tome lá esta “garrafita”; olhe que ela tem mais de 200 anos; foi o meu neto quem ma deu...- exibiu orgulhoso a dita garrafa para, agora, a oferecer ao padre...
Olhei para a garrafa.... e percebi logo: Era uma garrafa normal de vinho do Porto. Teria, se tanto, e para aí, uns 3 anos ...
Na garrafa lá estava, de facto, marcada a data de “1800 e qualquer coisa”. Sim...pois estava; só que essa data não era a data que o vinho tinha mas a data da Fundação da Casa que o fabricava...
Agradeci a simpatia, e o vinho do Porto de “200 anos de idade”... para todos os efeitos. Sim... ele não o sabia... e ficou sem o saber. Era uma garrafa normal, pois era...mas o que contava, mesmo, era a intenção. E isso, para mim, foi o que interessou mesmo: a intenção com que ele ma dera! Sim... Ele tinha dado ao padre a sua melhor garrafa; a garrafa mais antiga que tinha em sua casa...- pensava ele!
- É muito antiga, não é senhor padre?!
Sorri, reconhecido, e disse que sim! E foi também a sorrir que deixei aquele velhinho simpático, feliz e orgulhoso, por ter dado ao padre a melhor garrrafa da sua casa; a garrafa que o neto lhe dera... a garrafa de ... “200 anos”!
Aquela garrafa não tem 200 anos...mas para mim é como se tivesse...
Foi a minha melhor prenda de Natal!
Não concorda comigo, amigo ouvinte?!
Até para a semana!
Padre Júlio Grangeia
30-12-2002