NA FREQUÊNCIA DA VIDA

Amor aos 15 anos

A aula de Educação Moral naquela Escola Secundária da nossa cidade tinha acabado há instantes. Quando a campainha tocou, mesmo ao sair da sala, mandei uma "boca" a uma aluna que me pareceu não estar nos "seus dias". Ela que é toda vivaça, pareceu-me triste, algo distante; diria, até, pensativa. Se calhar, disse alguma coisa que a fez pensar pouco"! -pensei eu, cá com os meus botões. No entanto, depois de ter passado mentalmente, em linhas gerais, as ideias-força daquela aula não encontrei nada que suscitasse tal apatia. Por isso mesmo ao sair da sala de aulas, mandei a boca, simples, "como quem não quer a coisa":

No entanto, e de propósito, fiz que acreditei e por isso, também de uma fora pouco convincente, acabei por responder à letra:

No entanto, diz-me a experiência, em alguns casos como este, que, quando há qualquer coisa na manga, pode não sair na altura, mas, mais coisa menos coisa, acaba por sair, mais tarde ou mais cedo, e muitas vezes sem nós darmos conta. Por isso, virei costas...

Desci as escadas, saí do pavilhão com o livro de "ponto" na mão, rumo à sala de professores…

Antes de entrar no polivalente, que dá acesso à sala de professores, e já mergulhado no meio de todo aquele "malharal" eis que me tocam no braço:  

Afinal, a tal aluna que eu estranhara na aula e que havia dito, à saída da sala, que tudo estava bem, pelos vistos acusara o toque mais depressa do que eu tinha previsto... Virei-me.

Para que não houvesse dúvidas se tinha ou não ouvido a pergunta volta de novo a perguntar:

Como não tivesse respondido, e como olhasse envergonhada para o chão, vi, logo, que ali havia coisa de namorico:

E de facto, amigo ouvinte, a situação até era bem "simples". Não havia volta a dar. Ela era mesma nova. Tinha só 15 anos! Essa coisa de andar a namoriscar, ou, melhor, de "andar com ele " - sim, porque para esta, malta, "namorar é uma coisa" e "andar com " é uma outra bem distinta… - mas, como dizia, essa coisa de ter 14 anos e de gostar dele, sem os pais saberem era um caso chato…

Pois é, amigo ouvinte. Há tanta gente que fala mal desta malta, que brinca com coisas sérias, que são muito novos e que agora fazem à vista coisas que, antes, só se faziam às escondidas…

Pois é! E pelos vistos - Sim, pelos vistos porque estas coisa também são vistas a cada canto… - há muita gente que confunde namorar e amar com "egoismo vivido a dois" e que às vezes nada tem a ver com amor. Muitas vezes é mesmo "curtição", "esquemas"... e outras coisas que tais. Sim... há muita gente assim... pois há! Mas, amigo ouvinte! Deixemo-nos cá de coisas e ponhamos, de vez em quando tanto pessimismo de lado. Afinal de contas também há gente crescida... mesmo tendo apenas 15 primaveras. Um pai que é pai e uma mãe que sabe mesmo ser mãe e que educa na base da confiança... não está a dar o tempo por perdido... Na hora certa, mais dia menos dia, "essa coisa" dá mesmo fruto:

- Ó Stor! Isso para mim não dá. Tenho que dizer ao me pai...- lá dizia a menina crescida com apenas 15 anos de idade.

Pois é, amigo ouvinte. Ainda há gente nova que consegue, neste mundo, tão "velho" em tantas coisas, dar uma lufada de ar fresco que nos permite acreditar num mundo mais …mundo; num mundo menos imundo…

Afinal de contas, houve um homem, há dois anos atrás, e que ao nascer partiu a história ao meio, que já dizia o mesmo:

"A verdade vos libertará"!

                                            19.01.94

                                   Padre Júlio Grangeia