«A
Igreja tem de estar a 'full-time' na Internet». Quem o
diz é o «padre Júlio», porventura o mais conhecido
sacerdote-cibernauta do país, em conversa com o PortugalDiário.
Júlio Grangeia, pároco em Travassô e Óis da Ribeira,
duas freguesias do concelho de Águeda, disponibiliza
todos os dias algum do seu tempo à navegação na rede,
onde mantém uma página
pessoal
desde 1997, já visitada por mais de 37 mil pessoas.
A
Internet pode ser um «meio alternativo ou complementar,
não um meio exclusivo» de evangelização, adianta
aquele padre. Também porque «o discurso oficial é
cada vez menos compreendido» e o mundo da rede permite
chegar de outras formas aos «paroquianos da aldeia
global».
Para
responder a dúvidas ou apenas conversar, muitos
encontram-se num 'chat'
(em #padres_online da PT.net) onde vários religiosos,
incluindo uma freira espanhola, que se associaram a Júlio
Grangeia, vão respondendo aos cibernautas curiosos.
Muitos são «marginalizados» pelo discurso e prática
da própria Igreja. Seguros no anonimato dos 'nicknames',
todos podem fazer perguntas, «quando não encontram nos
seus párocos» a abertura e proximidade para as
abordar.
O bispo
de Aveiro, a diocese de Júlio Grangeia, «compreende»
a actividade cibernáutica do seu padre e entretanto
convocou-o a dinamizar um grupo que informatize as paróquias
aveirenses.
Em
Novembro de 1997, os bispos portugueses aprenderam a
navegar na rede, durante uma assembleia geral do
episcopado. D. João Alves, bispo de Coimbra e então
presidente da Conferência Episcopal, convidou os seus
pares a conhecer as «auto-estradas da informação»
com o objectivo de colocar cada região eclesiástica na
Internet. Passados três anos, só é possível aceder a
11 das 20 dioceses - e as assimetrias do país, também
se notam aqui: das dioceses 'off-line' a quase
totalidade é do interior (excepto Viana do Castelo).
Na página
da diocese
do Porto é
possível encontrar um fórum de «diálogo com o bispo»,
que privilegia por enquanto «o contacto com a Comunicação
Social de âmbito nacional». D. Armindo Lopes Coelho «disponibiliza-se
para responder às questões que lhe forem colocadas por
esta via». Na página de abertura, aquele bispo apela a
que se viaje «como amigos pelas auto-estradas da
Internet, como parceiros da mesma causa em caminhos de
tolerância e compreensão, de amizade e de paz».
Esteticamente
muito simples, sem muita imaginação, a maior parte dos
sítios limita-se a apresentar alguns dados históricos,
o perfil e contacto de bispos e órgãos diocesanos e,
eventualmente, alguma documentação (Santarém, por
exemplo, ainda que não tenha página própria,
disponibiliza uma carta
pastoral do
seu bispo sobre uma peregrinação diocesana a Fátima).
Júlio
Grangeia diz que «os 'sites' são formais, muito
estereotipados e pouco apelativos». Aquele padre refere
que a Igreja portuguesa ainda «está a descobrir» este
mundo, mas de uma «forma incipiente» - o que explicará,
porventura, a fraca qualidade gráfica e de conteúdos
da generalidade das páginas 'católicas'.
A
linguagem mantém o arcaísmo próprio de uma instituição
como a Igreja, que muitas vezes desconfiou das
novidades: «Bem-hajais pelo vosso interesse», agradece
em tom solene o bispo de Coimbra na página
de abertura
da sua circunscrição cibernética. «Mais importante
do que dizer, é a forma como se diz», alerta Júlio
Grangeia, que reconhece «usar e abusar», por isso, de
«formas menos canónicas» na sua página pessoal, como
o diabinho (mais simpático, que diabólico) que remete
para uma fotografia sua.
Na
navegação do PortugalDiário, feita por estes
dias, foram encontrados alguns pormenores quase anedóticos:
uma paisagem de neve a acolher os visitantes numa página
de uma paróquia
alentejana
ou uma fotografia de aviões a jacto a dar as
boas-vindas aos cibernautas que 'aterram' em Vilarinho
do Bairro,
uma freguesia da diocese de Coimbra.
São
setenta e uma as paróquias registadas no directório «Paróquias
de Portugal»
(a última foi adicionada a 13 de Dezembro), uma porta
de entrada possível. Uma página mais completa - e das
mais conseguidas -, para aceder a este mundo é o 'site'
oficial da Igreja Católica em Portugal.
A paróquia
com a população mais jovem de Viana do Castelo, Nossa
Senhora de Fátima,
mantém uma sondagem sobre a necessidade de rever ou não
a Concordata (o tratado que regula as relações entre
Portugal e o Vaticano), polémica suscitada há largos
meses pelo Bloco de Esquerda. E os resultados são
concludentes, apesar dos escassos 21 votos: 76,1 por
cento desejam a revisão daquele documento. Apenas 14,2
por cento recusam 'mexer' na Concordata e 9,5 por cento
dos votantes não manifestam opinião.
«O
pop-rock de mensagem cristã tem um nome» é como se
apresenta o grupo musical Golgotha,
que parece mais próximo de uma qualquer banda de
heavy-metal a avaliar pela 'iconografia'.
Para além
da música, a Internet proporciona várias
possibilidades aos mais apressados e que não têm tempo
para entrar numa igreja. Há quem assegure uma oração
diária on-line
(em português) e quem absolva os seus pecados, num confessionário
virtual
(apenas em inglês).
Pelo
mundo fora, as Igrejas locais adequam-se a esta nova
possibilidade de chegar a mais gente. O Vaticano
mantém um sítio adequadamente 'clássico', que
possibilita ainda um passeio pelos seus museus. Outras páginas
proporcionam uma informação mais variada ou
especializada - como a lista de todos os santos
da Igreja católica (com actualizações regulares
devido à acção do Papa João Paulo II) ou dois
centros de informações católicos na Internet (http://www.catholic.net/
e http://www.cin.org/).