Júlio Grangeia, o padre cibernético

Em 1997, o Padre Júlio Grangeia, resolveu criar um site onde pudesse estar mais perto e falar com mais pessoas. O www.padrejulio.net já foi visitado por cerca de 44 mil cibernautas, com quem conversa em chat, ou por e-mail. O padre Júlio pretende, com este site, chegar a mais pessoas, mostrar disponibilidade para ajudar e contribuir para o bem comum. É pároco em duas freguesias de Águeda, Travassô e Óis da Ribeira, tem 47 anos e às vezes faz missas em Power Point.

Como surgiu a ideia de criar este site e qual era o objectivo na altura, em 1997?

Padre Júlio: Comecei por arquivar os dados relativos aos baptismos, aos casamentos, aos óbitos e comecei a dar-me conta de que era uma ferramenta indispensável. Então, em 1997, decidi criar a minha página.

Qual é o objectivo deste site? O que pretende atingir através da Net?

Padre Júlio: O importante não é o site em si. O que importa é que o site é uma porta de entrada. Ou seja, as pessoas, ao navegar na Net e ao encontrarem o meu Web site, dão-se conta de que está ali um padre e que, através dos contactos e das informações que lá estão, podem entrar em contacto comigo.

Tinha conhecimento de outros sites religiosos em Portugal?

Padre Júlio: De facto encontrava sites religiosos mas eram muito maçudos, muito institucionais. E eu pensei, que por aí não ia a lado nenhum porque as pessoas só de olhar para aquilo fugiam a sete pés. Tinha de fazer uma coisa simples, apelativa, criativa. Se não fui o primeiro a fazer este tipo de site, devo ter sido dos primeiros. Porque quando comecei a procurar nos motores de busca sites ou páginas que me servissem de modelo, não encontrava nada.

Que estratégias usou para atrair os cibernautas?

Padre Júlio: Procurei brincar com coisas sérias. Por isso é que coloquei um diabinho e um anjinho, porque é assim que concebo a Internet: uma ambivalência de coisas boas e de coisas más. Acho importante brincar, utilizando uma linguagem simples, apetecível, leve, para que as pessoas percebam o que digo, para dizer que os padres e a Igreja também andam metidos nestas coisas, e que não somos nenhum bicho de sete cabeças. Por isso, ainda hoje, ao clicar no diabo, aparece a minha foto.

Qual é o balanço que faz desde a fundação do site, em 1997, até agora?

Padre Júlio: O balanço é extremamente positivo. No início estava com receio que não tivesse adesão. Mas foi impressionante. Coloquei no site alguns ítens, como quem sou eu, dados sobre as minhas paróquias, notícias sobre este site, mas sobretudo as bocas, e muitos cibernautas acorreram à página e deixaram as suas «bocas», algumas muito provocatórias. Há pessoas que aparecem com o nick de MaoTseTung, bombardeiro, playboy, só para provocar e, de repente, abrem o jogo completamente. No entanto, contam-se pelos dedos de uma mão as bocas menos recomendáveis que recebi.

Que tipo de questões lhe colocam os cibernautas?

Padre Júlio: Recebo uma média de 20, 30 e-mails por dia, colocando-me perguntas sobre Deus, a religião, a Bíblia, sobre o sexo, porque é que os padres não casam, como é a história dos preservativos, o que se deve fazer para ser padre, o que fazer para arranjar namoradas, como se salva um casamento em crise, divorciados que me perguntam se ainda podem casar pela igreja, pessoas que me pedem para rezar por eles a Deus.

Como faz estas «confissões»?

Padre Júlio: Por chat, mas a maior parte por mail. Comecei a dar conta que alguns dos problemas que me colocavam eram de tal forma complicados que exigiriam uma resposta de imediato a ponto de começar a pensar em criar um chat, através do IRC, o padres_online, onde estou às vezes, em norma, depois das 23 horas, porque é a hora que me é mais conveniente por causa das paróquias que também tenho.

Com que tipo de pessoas fala?

Padre Júlio: Com pessoas de todas as sensibilidades, quer em termos religiosos, quer em termos sexuais, de todas as idades. O que procuro é respeitar quem está do outro lado. E quando se começa a criar um conhecimento mais efectivo e mais afectivo da pessoa, cria-se uma empatia de tal ordem que, passado um bocadinho, já estamos a telefonar, a combinar encontro. Quantas pessoas já têm vindo cá a Travassô pessoas do Norte e do Sul do país para me conhecerem pessoalmente. Algumas dessas pessoas depois de me conhecerem pediram-me para as confessar.

O seu site também está disponível em versão inglesa. É uma forma de alcançar outro tipo de pessoas, um público específico?

Padre Júlio: No início, tinha outro tipo de chats, até porque tinha outros servidores e comecei a atingir outros cibernautas, noutros países. Traduzi apenas o rudimentar. Depois percebi que era difícil para mim manter uma conversa em inglês. Por isso agora o meu público alvo é o público lusófono. Mas falo com pessoas de outros países, como Espanha, sobretudo por mail.

Por quantos países já foi visitada a sua página?

Padre Júlio: Por 55 países. Tenho um contador de estatística e até já fui visitado por alguém no Estado do Vaticano. Não devia ser o Papa, com certeza. Os países fortes são Portugal, Brasil, Espanha, e outros da Europa. E alguns países como os Emiratos Árabes Unidos já visitaram a página.

Como é que os seus paroquianos encaram esta sua entrada no ciberespaço?

Padre Júlio: As paróquias que eu tenho são muito tradicionais. E no início, quando me lançei na Internet, tive algum receio a esse nível. No entanto, eles começaram a dar conta de que o padre trazia notoriedade para a freguesia, que passou a ser mais conhecida. Por outro lado, numa altura em que se começavam a publicar os resultados do acesso ao ensino superior na Internet, muitos estudantes vinham cá para eu lhes dizer em primeira mão se tinham entrado ou não. Tudo isto foi o suficiente para começar a «amaciar».

Como faz a ponte entre o real e o virtual na sua actividade como padre?

Padre Júlio: Tenho falado de muitos casos que encontro na Internet na homilia. Por outro lado, tenho feito autênticas homilias com trabalhos que realizo em Power Point. Projecto-os num ecrã gigante que, na práctica, é um lençol, e é giro porque através da música, dos sons robóticos, da imagem, da cor, as pessoas apreendem muito melhor aquilo que, precisando de muito mais tempo e sem usar estas tecnologias, seria muito maçudo. E tenho tido uma óptima receptividade das pessoas a estas novas tecnologias.

Acha que as novas tecnologias são um caminho a percorrer pela Igreja Católica?

Padre Júlio: Indubitavelmente. Costumo dizer que será um gravíssimo pecado de omissão se a Igreja não abraçar com ambas as mãos estas novas tecnologias, até porque estamos numa aldeia global e estamos numa paróquia cada vez mais global. É extremamente gravoso se esquecermos estas novas tecnologias para ir ao encontro das pessoas. Hoje os púlpitos já não existem. Hoje a Internet é um púlpito que não pode de forma alguma ser descurado, e temos de trabalhar isto a tempo inteiro, não podemos estar aqui em part-time como eu. No Brasil, já se transmitem eucaristias pela Internet, porque existem esses padres a tempo inteiro. Nós portugueses ainda estamos a acordar para este panorama.

2001/07/16 11:28
Rosalina Grilo