Sociedade | A “tentação” da Internet  

 
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Longe vão os tempos em que a Internet era algo de desconhecido. Hoje em dia, nem mesmo os membros da Igreja Católica resistem à “tentação” das novas tecnologias. Em Portugal, e pela mão do (cibernauta) Júlio Pinto, está online a primeira página de um padre. Venha conhecê-la.

”Francamente não sei como isto começou!”, afirma Padre Júlio, em contacto via e-mail ao Magazine Digital. Refere que desde que se conhece que tem este “bichinho” por coisas electrónicas. Foi assim que surgiu a “pancada” pela informática. Desde contactar pessoas via rádio “CB” (de onde “falou” para mais de 100 países, próximos e longínquos, como a Indonésia, Austrália), até ao seu primeiro computador em 1984, “um "086", ao que suponho com 40 Mb de disco rígido”, passaram 10 anos

Ao olhar para trás, recorda com um certo humor o que o comerciante disse sobre o 1º computador “dizia que os 40 MB dava para armazenar tudo o que eu quisesse durante toda uma vida”. Era o tempo em que os programas (softwares) "pesavam" apenas 1 mb, “quando me lembro do que o comerciante me dizia e penso agora no Office, por exemplo, que só ele pesa mais do que 500 Mb, dá mesmo vontade de rir”, recorda...

Auto didacta por natureza (embora por vezes isso lhe “custasse” a formatação de discos rígidos), Padre Júlio, começou a sentir que era um desperdício não utilizar esta "ferramenta" para arquivar os dados da paróquia, nomeadamente os baptismos, casamentos e óbitos, “e por isso o passo seguinte - num tempo em que a programação em "MS-DOS" é que estava a "dar cartas", onde o Windows surgia a medo e onde "mexer no rato" ainda era "complicado - comecei por fazer uma "base de dados" em Dbase III (em DOS), e consegui meter todos os baptismos, casamentos e óbitos desde 1910, que incluíam o nome da pessoa, a data de nascimento e do baptismo, o nome do Pai e da mãe, dos avós paternos e maternos, etc. No entanto, as coisas iam evoluindo, até que nos anos 90, o sacerdote começou a ouvir falar da Internet e num mundo inteiro por explorar.

“O passo lógico, depois da informatização paroquial, era ver que"coisa" era essa da Internet. Liguei-me e comecei a ver que era importante e complexa de mais para não se tirar partido. Começaram a surgir os primeiros sites pessoais e institucionais e eu achei que talvez fosse interessante arranjar um cantinho num "servidor" que oferecesse "espaço à borla", e claro aprender esta história do html”

A primeira “casa” ficou alojada no Terravista. “Era muito primitiva com tudo aquilo que uma página não deve ter: imagens, gráficos, sons. Moral da história: era muito pesada a abrir”. No entanto não se deixou “intimidar”, pois "é preferível dizer menos bem e que todos entendam, do que falar tudo como deve ser e ser apenas entendido por poucos" Mas a grande dificuldade era encontrar um site pessoal de qualquer padre ou de qualquer paróquia na Net para servir de modelo. “E por isso, pensei fazer um site muito simples. Revelava quem era, falava também das minhas Paróquias (Travassô e Óis da Ribeira) e tinha também as minhas crónicas que tinha divulgado em rádios locais. Nessa altura fiz questão de aparecer numa foto em "fato de treino" para as pessoas não se assustarem com um padre na Net e para saberem que os padres não são bichos de 7 cabeças”.

E não podia ser mais bem sucedido. Logo a abrir, um anjinho e um diabinho (muito amorosos) ladeavam o nome do Padre Júlio. Quando se clicava no Anjo aparecia os horários da Missas e quando se clicava no "diabo" aparecia a foto. “Foi impressionante os e-mail’s que recebi de estímulo. Por ser, nomeadamente, capaz de brincar com estas coisas e de não ser pesado, e de aparecer a minha foto quando clicava no diabo”, revela. No entanto, “não é que eu me considere um diabo, mas foi tão somente uma isca: intui na altura que se enveredasse por uma página formal e pouco criativa os cibernautas só de ver fugiam logo”.

Mas o espaço para tirar dúvidas, esclarecimentos, desabafar ou mandar “bocas” foi muito bem aceite. “No início estava com receio de receber via e-mail "bocas parvas" até porque tinha (e tenho) no meu site um "guestbook" onde as pessoas podem escrever o que bem entendem... Mas podem-se contar pelos dedos de uma mão as "bocas" parvas que recebi”, recorda.

Com esta página, e mesmo sem se aperceber, o pároco fez história – era o primeiro padre cibernauta. E até já “transmitiu”, em 1997, uma cerimónia para o Brasil, com a realização de um casamento na sua igreja, que foi visto pelos pais da noiva no outro lado do Atlântico. Mas a “tentação” da Internet não para, bem como as ferramentas ao alcance de quem navega. Começou por achar interessante se respondesse em tempo real a quem o procurasse. Assim instalou uma série de ferramentas, desde o ICQ ao IRC.

Mas a história não acaba aqui: “até porque me dei conta que "falar" seria mais interessante do que teclar. Comecei a interessar-me mais por programas que suportassem a voz, os voice chats, e outros como o "firetalk", o “buddyphone” ou o "hearme" que se encontra na minha página e onde quem desejar falar comigo o pode fazer desde que tenha microfone”; revela. Instalou uma câmara e começou a usar também o "netmeeting" e o iphone (da Vocaltec) mas agora procura ser muito criterioso com estes programas porque “me dei conta que estes muitas vezes são mais para vídeo (com tudo o que isso implica) do que para conferência”.

Mas nem tudo são “rosas” – “hoje dou-me conta que é necessário mais do que nunca ser tolerante e ter “estômago" porque encontramos de tudo e as pessoas mais diversas que nos pedem ajuda. Dou conta que há uma enorme SEDE de algo; e que as pessoas necessitam de desabafar.

O sucesso é evidente. Já sem tempo para dar resposta a todas as solicitações, Padre Júlio Pinto vai “navegando” ao sabor das tecnologias. E a própria linguagem muda, como exemplificou na eucaristia transmitida online. Dirigindo-se ao jovem casal, o sacerdote faz os votos do matrimónio dizendo: “têm que fazer um "restart" muitas vezes, e fazer o "Scan" ao disco rígido da vossa vida...e não devem ter medo de procurar sempre os melhores "drivers" para que a vossa "programação a dois" não tenha "bugs". Não há dúvida que este é um sinal dos tempos...

2000/08/28 09:00
Marta Silvestre