Lisboa, 08 Jul (Lusa) - Júlio Grangeia foi o primeiro padre a
colocar a sua paróquia na Internet. Desde então, nunca mais parou de
descobrir as vantagens do ciber-espaço na divulgação da fé católica e
já defende mesmo a celebração de missas virtuais.
     Encarregado de duas paróquias do concelho de Águeda - S.
Miguel de Travassô e Óis da Ribeira -, Júlio Grangeia, 43 anos, criou
o seu "site" há quatro anos. A iniciativa vingou, e actualmente já são
pelo menos 93 os "sites" de paróquias portuguesas na Internet.
     O seu espírito inovador levou-o mesmo a ser o primeiro padre
português a celebrar um casamento transmitido através da Internet,
possibilitando aos pais e amigos da noiva testemunharem a cerimónia a
partir do Brasil.
     E agora já tem outra meta: a realização de missas para
cibernautas. "Infelizmente esse projecto não passa só por mim, porque
implica gastos significativos", confessa.
     Júlio Grangeia comprou o seu primeiro computador fruto de uma
forte paixão pela informática que diz ter nascido consigo, e daí à
informatização das suas paróquias foi um passo: "Gradualmente apercebi-
me que era um desperdício não utilizar esta ‘ferramenta’ para arquivar
os dados da paróquia, nomeadamente os baptismos, casamentos e óbitos.
Por isso criei uma base de dados".
     Sem qualquer curso de informática, Júlio Grangeia partiu à
descoberta da Internet em 1994, e três anos depois, com a ajuda de um
amigo, criou a sua primeira página.
     Afirma ter sido o mais lógico a fazer depois da informatização
paroquial: "Liguei-me à net, e comecei a ver que era uma coisa
importante e complexa de mais para não se tirar partido".
     Considera que o "site" inicial era um tanto primitivo e muito
lento na abertura, mas a sua prioridade máxima era poder comunicar.
     "O meu lema na net é [antes] dizer menos bem as coisas, mas de
forma que todos entendam, do que falar tudo como deve ser, e ser
apenas entendido por alguns, poucos".
     Desde o início procurou construir um site simples e mostrar a
sua faceta natural e descontraída. "Nesse site dizia quem era, e já
nessa altura fiz questão em aparecer numa foto em fato-de-treino
(ainda agora disponível) para as pessoas não se assustarem com um
padre na net, e para saberem que os padres não são ‘bichos de sete
cabeças’", contou à Lusa.
     Confessou ser frequentemente contactado por cibernautas que
querem desabafar e justifica o sucesso que diz ter através da net com
a capacidade que possui em suavizar assuntos sérios.
     As imagens de um anjinho e um diabinho que ladeiam o seu nome
na página conquistam muitos elogios, segundo conta. "São
impressionantes os ‘e-mails’ que recebo de estímulo por ser capaz de
brincar com estas coisas, e não ser pesado. Não me considero um diabo,
foi somente uma ‘isca’ que usei, pois nestas coisas da igreja também
temos de perceber de ‘marketing’ para cativar as pessoas".
     Como segundo factor determinante aponta o espaço criado para
aconselhamento, desabafos e para o esclarecimento de dúvidas, regra
geral relacionadas com questões bíblicas e religiosas, mas também com
a homossexualidade, o casamento ou o sexo.
     E enquanto a possibilidade de celebrar missas pela Internet
não chega, vai espalhando a mensagem do evangelho nos "e-mails" que
envia e nos diálogos "on-line" que mantém diariamente.
     Júlio Grangeia mostra-se ainda um defensor entusiasta deste
novo media: "Os limites das paróquias já não se circunscrevem ao
território das mesmas. É necessário que cada vez mais paróquias
estejam na rede para que a proposta da Boa Nova de Jesus Cristo chegue
a mais pessoas".
     Afirmou, ainda, ser muitas vezes consultado por outros párocos
que tencionam enveredar pelos caminhos da "cibermania", o que
considera fruto de um trabalho dedicado.
     Privilegia o contacto pessoal com as pessoas, e a resposta em
tempo real às suas necessidades em detrimento do serviço de apoio que
presta via Internet, mas não deixa de atribuir extrema importância aos
progressivos passos que várias igrejas têm dado em prol da
modernização e utilização dos novos recursos.
     "Mais do que não boicotar, a igreja também precisa de criar
incentivos para que o trabalho e o apoio que se presta na net não se
faça apenas porque se gosta, mas porque é preciso", afirmou à Lusa.
     Espera ainda que um dia esses incentivos se traduzam em apoios
financeiros, de forma a poder concretizar um dos seus muitos sonhos e
poder finalmente celebrar missas através da Internet.

     MDS
     Lusa/fim