| «Caros fiéis de Travassô e todos aqueles
que nos acompanham em qualquer parte do
mundo através da internet...» As palavras
ecoam na igreja paroquial de Travassô, na
diocese de Aveiro, e são proferidas pelo
padre Júlio Grangeia. Desde o passado mês de
Junho, todos os sábados, este sacerdote de
49 anos celebra uma missa que é transmitida
para todo o mundo através da internet. Uma
câmara colocada no púlpito da igreja, um
operador de imagem (sempre que possível), um
computador na sacristia e um servidor em
Inglaterra permitem a transmissão da missa
online do padre Júlio Grangeia. «Em
linguagem de marketing é um produto
que eu estou a experimentar agora», afirma à
FAMÍLIA CRISTÃ este sacerdote no final da
eucaristia. «Não é um fim em si mesmo mas um
meio», acrescenta. Para o padre Júlio a
eucaristia não é para ser vista à distância,
é para ser presencial. Daí que utilize a
transmissão online como meio de as
pessoas chegarem até ele ou até qualquer
outro sacerdote católico. «A missa
online é uma porta de entrada», afirma
este sacerdote fascinado pelas novas
tecnologias. Esta porta é um meio
complementar de evangelização para aproximar
as pessoas. «A missa online não
leva a que as pessoas venham mais à missa»,
confessa o padre Júlio, «mas é um meio para
colocar a Igreja na internet.»
Pioneiro na internet
A missa online, pegando nas
palavras do padre Júlio, é o último «produto
de um kit completo» que este
sacerdote coloca ao serviço da
evangelização. O padre Júlio Grangeia é
pioneiro, na Igreja, no uso da internet.
Desde 1997 que tem um site na rede
mundial. Em www.padrejulio.net dá-se a
conhecer e conhece aqueles que utilizam este
meio de comunicação. «A Igreja tem de estar
onde se movimentam as pessoas», afirma.
Reconhece que nem tudo são rosas neste mundo
do ciberespaço. «A internet não é
boa nem é má. É tal e qual o mundo. É um
amplificador do que se passa no mundo.» Para
expressar este binómio, no topo da página
inicial do padre Júlio podemos encontrar um
anjo e um demónio. Mas visitar a página
pessoal do padre Grangeia na internet é
muito mais do que uma visita ao trabalho
pastoral que desenvolve nas suas três
paróquias: Travassô, Óis da Ribeira e
Espinhel. Para além das notícias que tenta
actualizar sempre que pode, com a ajuda de
uma colaboradora dos jornais locais, o padre
Júlio é um sacerdote interactivo na
internet. Utiliza todos os canais para
conhecer e dar-se a conhecer na rede: desde
os chats (salas de conversação)
passando pelo Hi5, Netlog e YouTube. «Hoje
em dia procura-se tudo na internet, vai-se
ao Google e pesquisa-se tudo.
Porque não procurar um padre?», interroga-se
o padre Júlio Grangeia. E têm sido muitos
aqueles que o procuram. Pessoas que estão na
igreja, que se afastaram da igreja ou que
nunca se aproximaram. «Encontro de tudo»,
afirma. O padre Júlio faz esta confissão já
na sua residência paroquial a poucos metros
da igreja de Travassô. Um local amplo
repleto de secretárias e computadores. É
daqui que o padre Júlio gere o seu portal na
internet. Uma câmara em frente ao computador
permite-lhe gravar os inúmeros vídeos que
vai colocando no YouTube. Diz que o YouTube
é «a menina dos seus olhos» porque as
pessoas «estão pouco viradas» para a leitura
e ali coloca pequenos vídeos que convidam o
cibernauta a uma reflexão ou são apenas
excertos do seu dia-a-dia ou do trabalho que
desenvolve nas paróquias.
Uma paróquia virtual
É uma «paróquia virtual» aquela que o
padre Júlio Grangeia foi construindo na
internet. Reconhece que já não tem mãos a
medir para dar resposta aos inúmeros
e-mails que recebe. «Se é um e-mail
que me dá os parabéns pelo trabalho que
faço... é fácil. Mas as coisas complicam-se
quando me chegam e-mails de pessoas
desesperadas, casos complicados que me
obrigam a reflectir e a estudar», desabafa o
padre Júlio. Este sacerdote é «vítima» da
sua própria fama. Na sua página é possível
ler os inúmeros artigos que já foram
escritos sobre ele e ver os programas e
reportagens em que já participou. É um
verdadeiro padre cibernético que defende que
«a Igreja deve ter sacerdotes a tempo
inteiro neste novo meio de comunicação».
Como disponibiliza todos os contactos,
quando não responde aos e-mails as
pessoas chegam a telefonar a pedir ajuda. «O
que dói são aquelas pessoas que escrevem
duas e três vezes. Eu tenho de fazer uma
filtragem porque não consigo responder a
todas.» O padre Júlio atribui esta procura
ao «mundo individualista» em que as pessoas
vivem. «As pessoas apenas querem ser
ouvidas. Eu estou ali para escutar e para
dar uma Boa Nova, uma boa notícia, é assim
que eu evangelizo», conclui o padre Júlio.
Dos bares para a igreja
O padre José Alves entrou em contacto com
o mundo da informática ainda seminarista.
Não apenas numa óptica de utilizador mas
também na perspectiva de saber como
funcionava esta nova maravilha da técnica.
Hoje, aos 41 anos, o padre José Alves é o
sacerdote que teve a coragem de ir ao mundo
do divertimento buscar o sistema de
karaoke e colocá-lo, imaginem, dentro
de uma igreja. Viu o sistema nos bares onde
jovens cantavam as músicas da moda e
imaginou o sistema aplicado aos cânticos na
sua igreja. Pensou no coro, no ensaiador do
coro, Rui Lavos, e nos seus conhecimentos de
informática. Hoje a igreja paroquial de
Monte Real, na diocese de Leiria, não deixa
de ser uma igreja curiosa. Dois ecrãs
virados para a assembleia ladeiam o altar e
um terceiro, mais escondido, está voltado
para os celebrantes. Numa consola,
projectada pelo padre José Alves e colocada
do lado oposto ao ambão, reside o cérebro do
sistema. A consola acolhe dois computadores:
um que detém um sistema de powerpoint
onde são colocados os textos das leituras e
outro com os cânticos da celebração editados
em karaoke.
Uma eucaristia com mais qualidade
O objectivo, diz o padre José Alves, «é
levar as pessoas a participar melhor na
missa». No caso das leituras, os textos das
Sagradas Escrituras são projectados nos
ecrãs ao mesmo tempo que são lidos pelos
leitores. «É mais fácil compreender o
sentido do texto quando posso ler esse
texto», afirma o padre José, que acredita
que este sistema é uma forma de dar mais
qualidade à participação dos fiéis na
eucaristia. «Durante a homilia também
utilizo este sistema para colocar algumas
frases-chave que considero marcantes para
fazer passar um ideia.» Tudo isto pode ser
controlado a partir da consola ou de um
comando. «Quando não tenho ajudante, eu
próprio, com o comando, dou as ordens para a
entrada das leituras e das frases nos
ecrãs», afirma o padre José Alves. O mesmo
se passa com o sistema de karaoke.
Selecciona-se o cântico que se quer para
cada momento da eucaristia. Na consola, uma
pequena mesa de mistura pode editar apenas a
parte instrumental ou também a parte vocal.
Nos monitores é editada a letra dos cânticos
que ao mudar de cor vai marcando o ritmo.
«Se as pessoas souberem o cântico, coloco só
a parte instrumental e tiro as vozes, se não
souberem coloco também as vozes», explica o
padre José, que manifesta satisfação pelos
resultados obtidos. Afirma que «a celebração
ganha qualidade porque as pessoas estão mais
atentas e participam mais».
Este sistema está em funcionamento desde
a Páscoa do ano passado e é sobretudo no
Verão que tem melhores resultados devido aos
turistas que por aqui passam para uns dias
de descanso nas Termas de Monte Real. O
padre José Alves afirma que não notou que
houvesse aumento de fiéis, mas reconhece que
os que vêm «participam melhor».
Karaoke para todas as paróquias
Mas o padre José Alves, devido à
curiosidade de muitos fiéis e dos colegas
sacerdotes, quer colocar este sistema ao
serviço de outras comunidades. Juntamente
com o ensaiador Rui Lavos tem vindo a
trabalhar na gravação de cânticos para
alargar o leque de escolhas na eucaristia. O
grupo coral da paróquia de Monte Real, a que
deram o nome Kallepa (coisas belas), já
gravou cinquenta cânticos e está agora a
gravar mais cinquenta. Os ensaios para os
Salmos também já começaram. Após o trabalho
de gravação segue-se o trabalho de
informática para editar cada cântico em
sistema karaoke. Ao mesmo tempo, o
padre José Alves quer mandar construir dez
consolas iguais à da sua Igreja. «O
objectivo é poder utilizar o sistema em
qualquer paróquia, dando uma ajuda em muitos
locais onde nem sequer existe coro», afirma
o padre Alves. É que a tecnologia está ao
serviço do homem e como tal também ao
serviço da Igreja. Neste caso está ao
serviço de uma «maior e melhor participação
dos fiéis na Eucaristia», conclui o padre
José Alves. |