Janeiro de 2008

 

 

Igreja
Janeiro de 2008

Novas tecnologias
A evangelização multimédia

«Caros fiéis de Travassô e todos aqueles que nos acompanham em qualquer parte do mundo através da internet...» As palavras ecoam na igreja paroquial de Travassô, na diocese de Aveiro, e são proferidas pelo padre Júlio Grangeia. Desde o passado mês de Junho, todos os sábados, este sacerdote de 49 anos celebra uma missa que é transmitida para todo o mundo através da internet. Uma câmara colocada no púlpito da igreja, um operador de imagem (sempre que possível), um computador na sacristia e um servidor em Inglaterra permitem a transmissão da missa online do padre Júlio Grangeia. «Em linguagem de marketing é um produto que eu estou a experimentar agora», afirma à FAMÍLIA CRISTÃ este sacerdote no final da eucaristia. «Não é um fim em si mesmo mas um meio», acrescenta. Para o padre Júlio a eucaristia não é para ser vista à distância, é para ser presencial. Daí que utilize a transmissão online como meio de as pessoas chegarem até ele ou até qualquer outro sacerdote católico. «A missa online é uma porta de entrada», afirma este sacerdote fascinado pelas novas tecnologias. Esta porta é um meio complementar de evangelização para aproximar as pessoas. «A missa online não leva a que as pessoas venham mais à missa», confessa o padre Júlio, «mas é um meio para colocar a Igreja na internet.»

Pioneiro na internet

A missa online, pegando nas palavras do padre Júlio, é o último «produto de um kit completo» que este sacerdote coloca ao serviço da evangelização. O padre Júlio Grangeia é pioneiro, na Igreja, no uso da internet. Desde 1997 que tem um site na rede mundial. Em www.padrejulio.net dá-se a conhecer e conhece aqueles que utilizam este meio de comunicação. «A Igreja tem de estar onde se movimentam as pessoas», afirma. Reconhece que nem tudo são rosas neste mundo do ciberespaço. «A internet não é boa nem é má. É tal e qual o mundo. É um amplificador do que se passa no mundo.» Para expressar este binómio, no topo da página inicial do padre Júlio podemos encontrar um anjo e um demónio. Mas visitar a página pessoal do padre Grangeia na internet é muito mais do que uma visita ao trabalho pastoral que desenvolve nas suas três paróquias: Travassô, Óis da Ribeira e Espinhel. Para além das notícias que tenta actualizar sempre que pode, com a ajuda de uma colaboradora dos jornais locais, o padre Júlio é um sacerdote interactivo na internet. Utiliza todos os canais para conhecer e dar-se a conhecer na rede: desde os chats (salas de conversação) passando pelo Hi5, Netlog e YouTube. «Hoje em dia procura-se tudo na internet, vai-se ao Google e pesquisa-se tudo. Porque não procurar um padre?», interroga-se o padre Júlio Grangeia. E têm sido muitos aqueles que o procuram. Pessoas que estão na igreja, que se afastaram da igreja ou que nunca se aproximaram. «Encontro de tudo», afirma. O padre Júlio faz esta confissão já na sua residência paroquial a poucos metros da igreja de Travassô. Um local amplo repleto de secretárias e computadores. É daqui que o padre Júlio gere o seu portal na internet. Uma câmara em frente ao computador permite-lhe gravar os inúmeros vídeos que vai colocando no YouTube. Diz que o YouTube é «a menina dos seus olhos» porque as pessoas «estão pouco viradas» para a leitura e ali coloca pequenos vídeos que convidam o cibernauta a uma reflexão ou são apenas excertos do seu dia-a-dia ou do trabalho que desenvolve nas paróquias.

Uma paróquia virtual

É uma «paróquia virtual» aquela que o padre Júlio Grangeia foi construindo na internet. Reconhece que já não tem mãos a medir para dar resposta aos inúmeros e-mails que recebe. «Se é um e-mail que me dá os parabéns pelo trabalho que faço... é fácil. Mas as coisas complicam-se quando me chegam e-mails de pessoas desesperadas, casos complicados que me obrigam a reflectir e a estudar», desabafa o padre Júlio. Este sacerdote é «vítima» da sua própria fama. Na sua página é possível ler os inúmeros artigos que já foram escritos sobre ele e ver os programas e reportagens em que já participou. É um verdadeiro padre cibernético que defende que «a Igreja deve ter sacerdotes a tempo inteiro neste novo meio de comunicação». Como disponibiliza todos os contactos, quando não responde aos e-mails as pessoas chegam a telefonar a pedir ajuda. «O que dói são aquelas pessoas que escrevem duas e três vezes. Eu tenho de fazer uma filtragem porque não consigo responder a todas.» O padre Júlio atribui esta procura ao «mundo individualista» em que as pessoas vivem. «As pessoas apenas querem ser ouvidas. Eu estou ali para escutar e para dar uma Boa Nova, uma boa notícia, é assim que eu evangelizo», conclui o padre Júlio.

Dos bares para a igreja

O padre José Alves entrou em contacto com o mundo da informática ainda seminarista. Não apenas numa óptica de utilizador mas também na perspectiva de saber como funcionava esta nova maravilha da técnica. Hoje, aos 41 anos, o padre José Alves é o sacerdote que teve a coragem de ir ao mundo do divertimento buscar o sistema de karaoke e colocá-lo, imaginem, dentro de uma igreja. Viu o sistema nos bares onde jovens cantavam as músicas da moda e imaginou o sistema aplicado aos cânticos na sua igreja. Pensou no coro, no ensaiador do coro, Rui Lavos, e nos seus conhecimentos de informática. Hoje a igreja paroquial de Monte Real, na diocese de Leiria, não deixa de ser uma igreja curiosa. Dois ecrãs virados para a assembleia ladeiam o altar e um terceiro, mais escondido, está voltado para os celebrantes. Numa consola, projectada pelo padre José Alves e colocada do lado oposto ao ambão, reside o cérebro do sistema. A consola acolhe dois computadores: um que detém um sistema de powerpoint onde são colocados os textos das leituras e outro com os cânticos da celebração editados em karaoke.

Uma eucaristia com mais qualidade

O objectivo, diz o padre José Alves, «é levar as pessoas a participar melhor na missa». No caso das leituras, os textos das Sagradas Escrituras são projectados nos ecrãs ao mesmo tempo que são lidos pelos leitores. «É mais fácil compreender o sentido do texto quando posso ler esse texto», afirma o padre José, que acredita que este sistema é uma forma de dar mais qualidade à participação dos fiéis na eucaristia. «Durante a homilia também utilizo este sistema para colocar algumas frases-chave que considero marcantes para fazer passar um ideia.» Tudo isto pode ser controlado a partir da consola ou de um comando. «Quando não tenho ajudante, eu próprio, com o comando, dou as ordens para a entrada das leituras e das frases nos ecrãs», afirma o padre José Alves. O mesmo se passa com o sistema de karaoke. Selecciona-se o cântico que se quer para cada momento da eucaristia. Na consola, uma pequena mesa de mistura pode editar apenas a parte instrumental ou também a parte vocal. Nos monitores é editada a letra dos cânticos que ao mudar de cor vai marcando o ritmo. «Se as pessoas souberem o cântico, coloco só a parte instrumental e tiro as vozes, se não souberem coloco também as vozes», explica o padre José, que manifesta satisfação pelos resultados obtidos. Afirma que «a celebração ganha qualidade porque as pessoas estão mais atentas e participam mais».

Este sistema está em funcionamento desde a Páscoa do ano passado e é sobretudo no Verão que tem melhores resultados devido aos turistas que por aqui passam para uns dias de descanso nas Termas de Monte Real. O padre José Alves afirma que não notou que houvesse aumento de fiéis, mas reconhece que os que vêm «participam melhor».

Karaoke para todas as paróquias

Mas o padre José Alves, devido à curiosidade de muitos fiéis e dos colegas sacerdotes, quer colocar este sistema ao serviço de outras comunidades. Juntamente com o ensaiador Rui Lavos tem vindo a trabalhar na gravação de cânticos para alargar o leque de escolhas na eucaristia. O grupo coral da paróquia de Monte Real, a que deram o nome Kallepa (coisas belas), já gravou cinquenta cânticos e está agora a gravar mais cinquenta. Os ensaios para os Salmos também já começaram. Após o trabalho de gravação segue-se o trabalho de informática para editar cada cântico em sistema karaoke. Ao mesmo tempo, o padre José Alves quer mandar construir dez consolas iguais à da sua Igreja. «O objectivo é poder utilizar o sistema em qualquer paróquia, dando uma ajuda em muitos locais onde nem sequer existe coro», afirma o padre Alves. É que a tecnologia está ao serviço do homem e como tal também ao serviço da Igreja. Neste caso está ao serviço de uma «maior e melhor participação dos fiéis na Eucaristia», conclui o padre José Alves.

Imelda Monteiro