O QUE É UM JUBILEU?

Padre Doutor Georgino Rocha

 

 

Introdução - A celebração do Jubileu coloca-nos perante o uso de vários termos que têm um significado específico e é conveniente clarificar. Isto supõe um esforço que vos convido a fazermos e oferece-nos o ponto de partida para uma conversa que espero seja agradável e enriquecedora.



1. A palavra Jubileu vem do hebraico yobel que significa o carneiro-guia do rebanho; passa depois a indicar o corno do carneiro, o som do corno que anunciava a proximidade de algum acontecimento solene e a festa prevista no livro do Levítico, cap. 25. Usa-se a mesma expressão para transmitir a nova realidade inaugurada por Jesus ( Lc 4, 16-30): "O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me consagrou; enviou-me para levar a boa nova aos que sofrem, e para curar os desesperados, para anunciar a libertação aos exilados, e a liberdade aos prisioneiros; para proclamar um ano de graça da parte do Senhor" ( Is. 61, 1-2). A Igreja prossegue este ideal com a realização do Jubileu. Por isso, importa saber quais são as vítimas que sofrem e como ajudá-las a superar os males que as oprimem.



2. Apoiada na tradição bíblica, a Igreja por meio de Bonifácio VIII institui o Jubileu, em 1 300. No século XX, os papas Leão XIII celebra o de 1 900, Pio XI o de 1925 ( no final surge a Festa de Cristo Rei), Pio XII o de 1950 e faz a solene proclamação do dogma da Assunção de Nossa Senhora), Paulo VI o de 1975 para revigorar a Igreja nos caminhos da renovação e da reconciliação preconizados, há dez anos, pelo Vaticano II), e João Paulo II o do Ano 2000 para assinalar o aniversário do nascimento de Jesus Cristo e a passagem do Milénio. O actual Papa celebra dois Jubileus extraordinários: o de 1983 para comemorar os 1950 anos da Redenção; e o de 1987-1988 ( na véspera da queda do Muro de Berlim) para assinalar o nascimento de Nossa Senhora.


3. O Jubileu do Ano 2000 tem uma finalidade espiritual e destina-se ao revigoramento da vida cristã. É uma celebração da Igreja com fortes incidências sociais. É uma proposta-oferta-apelo que a Igreja Católica faz ao mundo para, dentro daquilo que é uma perspectiva humanista e cristã, se humanizar a sociedade, se viver a solidariedade activa, se atender à situação dos espoliados da sua dignidade, se promover a civilização do amor que tem como alicerces a verdade, a liberdade, a justiça e a paz. A celebração deste Jubileu está prevista para o período que vai do Natal 99 à festa da Epifania ( 06.01.2001). Foi preparada com uma série de actividades aos longo dos anos 1996-1999, que as dioceses e suas paróquias promoveram.


4. Ano Santo é o tempo ( normalmente correspondente a um ano) para celebrar o Jubileu, tempo em que a Igreja procura criar condições especiais para os baptizados acolherem a graça de Deus, a alegria cristã de viver, o perdão dos pecados, a reconciliação dos que se ofenderam e desavieram, a coragem para lutar por um mundo mais justo, segundo o projecto de Deus.


5. Encarnação é geração-gestação-crescimento de Jesus que se faz homem plenamente dedicado à realização do projecto de salvação, sem qualquer hesitação ou negligência. Por isso mostra que nunca se afasta de Deus e se manifesta Seu filho pela ressurreição.

6. Graça é a amizade com que Deus nos distingue por meio de Jesus e nos ajuda a proceder, em Igreja, como ele procedeu durante a sua vida na Palestina. As sua opções concretas em relação à convivência humana, à prática da justiça, à universalidade do amor a todos sem discriminação são a expressão da sua união com Deus e do seu serviço à humanidade. Faz tudo isto para nos abrir caminhos e horizontes. Viver em graça é seguir este exemplo estimulante e atraente, e celebrar aquela amizade nos sacramentos.


7. O 'tesouro da Igreja' é Jesus Cristo e a graça que Ele concede às pessoas que seguem o seu exemplo, vivem em união e oferecem as suas vidas pelo bem dos demais. Esta comunhão espiritual faz viver, apreciar e repartir os bens conseguidos como expressão de solidariedade e de fraternidade: oração, ajuda mútua, privações para partilha de recursos.


8. Igreja ou santuário jubilar são os templos destacados pelo papa e pelo bispo diocesano para os cristãos visitarem como locais do Jubileu. Na diocese de Aveiro, são quase todas as igrejas das sedes dos arciprestados ( concelhos administrativos) bem como os santuários de Maria Auxiliadora, em Mogofores, da Senhora de Vagos e da Mãe Admirável, de Schoenstatt.


9. Indulgência é o perdão concedido por Deus em Jesus Cristo às pessoas arrependidas. O perdão é Dom gratuito, fruto de misericórdia infinita de Deus. O perdão é acolhido por pessoas que cultivam as devidas disposições: reconhecimento da santidade de Deus, arrependimento sincero, desejo de receber o perdão e vontade de conformar a vida de acordo com o amor misericordioso de Deus revelado em Jesus Cristo. Estas disposições provocam-se, alimentam-se e atingem a plenitude mediante a prática das condições propícias. São as condições da indulgência.


Enumeram-se as condições previstas na orientação geral da Igreja:


a) Confissão sacramental;


b) Comunhão eucarística;


c) Oração pelas intenções do Santo Padre ( por ex. Pai nosso, ave-maria ) para expressar a comunhão eclesial;


d) Realização de obras necessárias, tais como:


* Peregrinação a uma igreja jubilar e participação numa celebração litúrgica;


* Visita a uma igreja jubilar onde se faz oração durante um tempo razoável;


* Visita, durante um tempo razoável a pessoas necessitadas;


* Abstinência, pelo durante um dia, de consumos supérfluos e entrega da quantia proporcionada poupada para os pobres;


* Apoio, com significativa contribuição monetária, a obras de carácter religioso ou social: Infância abandonada, juventude em dificuldades, anciãos, estrangeiros à procura...


* Dedicação de uma parte razoável do tempo livre a actividades úteis à comunidade: voluntariado, catequese.



10. Símbolo do Jubileu é o logotipo que tem gravada uma cruz sobre um fundo circular azul ( que representa o universo); esta cruz suporta e apoia a humanidade vinda dos cinco grandes continentes, representados por outras tantas pombas. A cruz significa o acontecimento admirável da encarnação e está representada com as mesmas cores das pombas. Uma luz suave dimana do centro da cruz para indicar que Cristo é a luz do mundo "ontem, hoje e sempre". A forma circular com que as pombas são apresentadas sugere o espírito de fraternidade que anima a celebração do Grande Jubileu do Ano 2000.

11. A mensagem do Ano Jubilar torna-se mais acessível por meio dos símbolos que a expressam:: a peregrinação ao santuário ( expressão da condição humana que busca o Infinito de Deus), a porta de acesso a este santuário onde nos encontramos com Deus        ( Eu sou a porta - diz Jesus), a bula da indulgência ( símbolo do perdão de Deus à humanidade pecadora), a purificação da memória onde se 'arquivam' factos que constituem um contra senso para o cristianismo (e fazem parte do livro da história da Igreja), a caridade que abre o coração às carências dos pobres e marginalizados, a memória dos mártires que, também no século XX, pagaram com o seu sangue a adesão incondicional a Cristo e à Igreja. Referência especial se deve a Maria, a Mãe de Jesus, que generosamente nos oferece seu Filho para a redenção da humanidade. Daí que se recorra a ela e se visitem os santuários que lhe são especialmente dedicados.

Em resumo, o Grande Jubileu consiste numa grande experiência interior a ser vivida pelos cristãos. As iniciativas exteriores hão ser "expressão de um compromisso mais profundo que toca o coração das pessoas" ( João Paulo II).

 

PADRE GEORGINO ROCHA