Raptores de padre apanham 6 anos

ROBERTO DORES, Setúbal

Depois das 20 horas de sequestro, o antigo capelão da cadeia de Pinheiro da Cruz prometeu beber uma cerveja com os raptores "para celebrar a vida" e ontem tentou cumprir a promessa. Mas em vão. O padre Júlio Lemos ainda levou as cervejas consigo para o tribunal, mas não conseguiu falar com os sequestradores, que foram condenados a seis anos e dez meses de cadeia pelo Tribunal de Grândola.

O tribunal deu como provado que António Guerra, 36 anos, e João Lopes, de 56, praticaram o crime de sequestro agravado e de uso e detenção de arma proibida, tendo usando uma faca e criado um engenho explosivo, que ataram ao peito do padre para o manter como refém, enquanto exigiam um automóvel e um telemóvel para se poderem evadir da prisão.

O colectivo considerou que Júlio Lemos esteve "sob ameaça psicológica permanente e de morte", apesar dos arguidos terem garantido que não planearam o sequestro e que apenas pretendiam chamar a atenção para a falta de condições da cadeia alentejana. O juiz considerou que os dois presos "mantiveram-se sempre determinados a alcançar a liberdade a qualquer preço" e mostraram uma "criatividade invulgar no fabrico do engenho". Mas o magistrado também disse que os sequestrados mostraram cuidado para com a alimentação do padre.

O caso remonta à manhã do dia 5 de Novembro de 2006, quando, após a habitual missa de domingo, o padre Júlio Lemos - hoje com 38 anos e sacerdote na Paróquia de São Teotónio, em Odemira - foi sequestrado por dois dos cerca de 20 reclusos que assistiam à cerimónia e só 20 horas depois as autoridades conseguiram imobilizar os dois indivíduos, após os convencerem a sair para a rua.

António Guerra cumpria uma pena de 25 anos, por vários crimes, onde se conta um homicídio, enquanto João Lopes estava condenado a cinco anos e sete meses por furto, levando o pároco a garantir ter-se dado um "milagre", justificando: "o João era uma homem de coração duro e disse várias vezes que íamos morrer todos. Mas como é que houve sinais de esperança e raios de sol naquela escuridão?", questionou, revelando ter acabado de escrever um livro onde relata as 20 horas intermináveis, que gostaria de ver chegar a filme. "Não pelos protagonistas, mas pela história de fé. O livro explica a história da cerveja", revelou.

in Diário de Notícias, Edição de 21-02-2008