Solenidade do Santíssimo Corpo e sangue

de Nosso Senhor Jesus Cristo

 

Águeda, 22 de Maio de 2008

 

A Eucaristia dom de Deus para a vida do mundo

 

 

1.           A Igreja celebra hoje a Solenidade do Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Queremos com esta celebração afirmar que a vida, a paixão e a ressurreição de Cristo se actualizam na Eucaristia, memorial vivo desse acontecimento redentor.

A Eucaristia é o centro e o vértice da vida espiritual da Igreja, a plenitude de comunhão da Humanidade com Deus, a fonte perene da vida e da esperança, o manancial inexaurível da caridade e o maior dom de Deus para a vida do Mundo.

2.           Na primeira leitura de hoje, Moisés explica-nos o sentido do maná, alimento dado por Deus ao seu Povo exausto e desfalecido pala longa caminhada do deserto. Mas o maná, alimento abundante e delicioso é sinal profético de um novo Pão que nos será dado por Jesus na sua Palavra e no seu Corpo e Sangue.

São Paulo, o apaixonado do Evangelho e da Eucaristia, na segunda leitura, agora proclamada, diz-nos que formamos um em Cristo um só corpo e que pela Eucaristia celebramos e vivemos a nossa união com Deus, a nossa identificação com Cristo e a nossa comunhão fraterna com os irmãos. “Somos muitos e formamos um só corpo”. Esta é uma das dimensões ainda não suficientemente apreendidas da Eucaristia, sacramento da caridade. 

Onde se sentam os pobres à mesa daqueles que celebram e vivem da Eucaristia? Que lugar damos no coração daqueles que se reúnem à volta do Altar da Eucaristia aos doentes, aos idosos, aos que não têm casa nem pão e aos que vivem momentos de solidão e de sofrimento?

Jesus anunciou a Eucaristia multiplicando os pães. Depois mandou os discípulos distribuir os pães multiplicados.

De Jesus recebemos o milagre. A nós Jesus pede-nos o serviço: de distribuirmos o pão – alimento humano da alegria, da fé, da esperança, da caridade e da vida e alimento divino da Eucaristia. Aqui neste indispensável serviço nos encontramos todos nós: bispo, presbíteros e diáconos, e vós caríssimos ministros da comunhão, tão indispensáveis vós sois. Aqui vos encontrais vós caros seminaristas, esperança de que não faltará no futuro na nossa Diocese quem celebre a Eucaristia e quem a distribua abundantemente ao Povo de Deus.  Aqui estais vós as religiosas, na vossa intensa acção pastoral e na vossa vida contemplativa diante do Sacrário. Saúdo as Comunidades religiosas de Águeda, de Travassô e de Recardães.

Compreedemos melhor agora esta bela síntese do Evangelho de hoje:

 “Eu sou o pão vivo que desceu do céu… Não como aquele que os vossos pais comeram, e morreram; quem comer deste pão viverá eternamente [1]

3.           A Igreja celebra a instituição da Eucaristia na Quinta-feira Santa, no início do Tríduo Pascal. A Eucaristia reconduz-nos em permanência ao cenáculo e ao mistério pascal.

A solenidade do Corpo e Sangue de Cristo renova e actualiza a Quinta-feira Santa e a Última Ceia e afirma uma dimensão festiva e alegre da celebração da Eucaristia ao mesmo tempo que afirma uma dimensão pública de fé na Eucaristia e dá valor à adoração eucarística que a procissão pelas ruas da nossa cidade continua e prolonga.

Adorar a Eucaristia tem este sentido contemplativo de quem se coloca diante de Cristo – dom de Deus para um mundo novo deixando-se iluminar e alimentar pela Eucaristia.

A Adoração Eucarística que a procissão amplia, prolonga e dilata à dimensão de todas as pessoas, famílias e ruas dá-nos tempo para rezarmos com a oração inicial desta liturgia:

Senhor Jesus ofereceste-nos este admirável sacramento da tua Páscoa. Dá-nos o gosto de venerar no Teu Corpo o teu imenso amor por nós”.

 

4.           Um dos frutos que brotam da Eucaristia e que se deve transformar em missão e em tarefa para aqueles que celebram a Eucaristia e para quantos se alimentam do Corpo de Cristo é procurar que se multiplique este Pão Vivo que desceu dos céus e que todos os famintos de Deus o procurem e encontrem.

Ressalta em cada Eucaristia a parábola da comunidade que se alimenta do mesmo Pão, a alegria da comunhão de quem se senta à mesma mesa e escuta a única Palavra, a beleza da diversidade de grupos, gerações, pessoas, culturas e proveniências e o sentido da missão que nos envia a repartir e a multiplicar o Pão da Eucaristia como dom de Deus para a vida do mundo.

Este testemunho de um Arciprestado que se reúne para celebrar em conjunto a Eucaristia deve ser um momento de evangelização a não perder para a cidade e para o concelho e um momento de comunhão eclesial e de unidade pastoral a intensificar.

É nesse sentido que nos unimos ao Congresso Eucarístico Mundial a realizar no Canadá, no próximo mês de Junho e onde nos sentiremos presentes através dos irmãos nossos de Aveiro que nele participam.

5.     Um pouco por toda a parte são estes os dias em que nas Comunidades da nossa Diocese centenas de crianças, acompanhadas das suas famílias, comungam pela primeira vez. Quero saudá-las com particular afecto e grande alegria. Elas são os sacrários vivos onde Cristo vive, o templo santo onde Deus mora.

        Aprendamos com elas a saborear o Pão vivo descido dos céus e a amar e a adorar Jesus que em nós vive com a simplicidade e a verdade daqueles que diariamente o recebem como se fosse a primeira vez.

6.    Há vinte anos o dia 22 de Maio era domingo de Pentecostes. Foi um dia marcado na história da Diocese. Eram ordenados nesse dia na Catedral os primeiros nove diáconos permanentes. Aveiro era assim a terceira diocese de Portugal a seguir a Lisboa e a Setúbal a retomar a restauração do Diaconado permanente.

Hoje queremos celebrar a gratidão pelo espírito atento desta Igreja diocesana que não tardou a acolher este dom de Deus que o Concílio nos trouxe e pelo trabalho denodado de quantos se dedicaram à preparação dos diáconos ao longo destes vinte anos.

Sede mensageiros dóceis da Palavra de Deus, servidores atentos das urgências da missão, pontes de diálogo da Igreja com a família e com a sociedade, guias e testemunhas da caridade da Igreja.

Sede assíduos na oração e disponíveis para novos campos de missão. Recordo na memória sagrada e agradecida o nome, a vida, o ministério e as famílias dos diáconos Carlos Merendeiro e Arnaldo Almeida.

7.           Celebramos este Dia neste espaço aberto e belo do Souto       do Rio.

Daqui partiremos, para as nossas terras, alimentados pela Eucaristia e decididos a fazer da Eucaristia dom de Deus para a vida do mundo. Como queremos esse mundo novo se não lhe oferecemos este dom?

        Viemos aqui para dizermos ao mundo as razões da nossa fé na Eucaristia.

        Partimos daqui decididos a oferecer este dom ao mundo das crianças e dos jovens, das famílias e das comunidades cristãs.

        A Eucaristia faz a Igreja e a Igreja vive da Eucaristia. Este é o mistério admirável da nossa fé. Este é o mistério da fé para a salvação do mundo.

                         + António Francisco dos Santos

                                      Bispo de Aveiro


 

[1] Jo, 6, 51.58.