Missa do padre Aires com lágrimas e revolta


O padre António Aires, alegadamente sequestrado e agredido na noite de consoada, em Alijó, recomeçou a celebrar a missa este fim-de-semana nas paróquias que tem a seu cargo. Depois de uns dias de retiro, em que aproveitou para descansar e recuperar, o sacerdote, de 38 anos, celebrou esta manhã a missa em Pegarinhos, Santa Eugenia, Sobreira e Carlão, sem fazer referência ao caso, mas num ambiente da grande solidariedade e apoio por parte dos paroquianos.

António Aires terá alegadamente sido sequestrado e espancado, despido e amarrado, junto a uma barragem, por um grupo de indivíduos, quando se deslocava para Alijó para celebrar a Missa do Galo. O sacerdote ainda não apresentou queixa, mas a Polícia Judiciária está a investigar, por se tratar de um crime público.

Ontem de manhã, a igreja de Pegarinhos, Alijó, encheu-se de fiéis e amigos de António Aires, refere a agência Lusa. Há 13 anos que o sacerdote repete o ritual de domingo, mas ontem, e ao contrário do que lhe é habitual, preferiu cingir-se à leitura dos textos da Bíblia para, conforme disse no púlpito, "evitar qualquer aspecto mais emocional".

António Aires , escolheu como tema a família e falou sobre "bondade", "compreensão", "partilha" e a necessidade de, na sociedade actual, se manterem "os valores tradicionais da família". O padre, que ao longo da homilia se revelou, por vezes, muito emocionado, contou com o apoio de muitos populares que também não conseguirem evitar as lágrimas.

O alegado sequestro do sacerdote que foi, aos 24 anos, o mais novo padre a ser ordenado pela Igreja Católica, levou muitos dos habitantes das aldeias onde é pároco a mostrarem-se indignados com a agressão. "O padre Aires é uma pessoa a 100 por cento", afirmou Orlando Silvano, um dos paroquianos de Pegarinhos. Já Elisa Alves considerou que "ninguém merece ser tratado assim, muito menos um padre que sempre nos apoiou a todos, desde os mais novos aos mais idosos".

A Assembleia de Freguesia de Pegarinhos aprovou, por unanimidade, uma moção de repúdio contra as agressões . A Fraternidade Sacerdotal de Vila Real, órgão ligado à Diocese e que representa os padres, já expressou "solidariedade" com o sacerdote e disponibilizou todo o apoio, incluindo o jurídico.

Esta estrutura exigiu ainda das forças policiais e judiciais que conduzam o caso até às últimas consequências e condenou um "certo jornalismo" que lançou a "desconfiança" e fez "insinuações maldosas".

in "Jornal de Notícias" - Edição de 31-12-2007